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A CATÁSTROFE DA SAÍDA
Cristovam Buarque é professor da Universidade de Brasília (UnB) e senador pelo PDT/DF.
A civilização contemporânea caminha para uma catástrofe, como já ocorreu com civilizações mais antigas. Mas desta vez, em escala planetária.
O aquecimento global é o risco mais visível. Mesmo que medidas sejam tomadas, nada aponta para a reversão da desarticulação climática e de suas conseqüências sobre a indústria, a agricultura, o nível do mar, o bem-estar individual, sem falar na extinção de milhares de espécies.
Ao risco da catástrofe climática soma-se a escassez de recursos, principalmente energéticos, que provocará o colapso de setores industriais. As alternativas energéticas trarão conseqüências igualmente catastróficas: usinas nucleares, mesmo com segurança rigorosa, terminarão por ameaçar o meio ambiente; o uso de biocombustíveis na escala necessária para atender às demandas do mercado causará desmatamento e reduzirá a produção de alimentos. Mesmo a mais limpa das energias, a hidrelétrica, cria lagos com impactos ecológicos negativos.
A migração é outro risco. Não só por causa da crise climática, mas também da desigualdade de oportunidades entre países. O fluxo internacional, essa transumância universal em busca de melhores opções de vida, provocará a decadência das cidades nos países do Sul, pelo esvaziamento, e a decadência das cidades nos países do Norte, pelo inchaço. O choque entre civilizações força um permanente quadro de guerra, de proporções internacionais.
A crescente disponibilidade de armas de destruição em massa fará o mundo cada vez menos seguro, provocando o risco de uma terceira catástrofe. Armas químicas e biológicas facilmente disponíveis serão usadas em guerras entre Estados, ou por grupos terroristas.
A economia global, sem controles estatais, trará uma vulnerabilidade crescente às economias nacionais, mantendo uma permanente instabilidade, até o dia da explosão dos trilhões da riqueza ilusória da bolha especulativa.
A convivência global e instantânea trará a probabilidade de epidemias que se espalharão de maneira mais rápida do que a possibilidade de enfrentá-las. A dependência de cada aldeia de bens e serviços vindos do exterior traz o risco de desarticulação no fornecimento dos produtos necessários ao funcionamento dos setores produtivos de cada cidade do planeta. A urbanização cria hordas deslocadas de seus ambientes, sem alternativas de sobrevivência salvo o crime, a mendicância, a informalidade, com sinais visíveis de desorganização total.
O individualismo e o tribalismo remanescentes em todo ser humano impedem a busca de soluções civilizatórias. A democracia nacional e de curto prazo impedirá medidas globais e de longo prazo que evitem a catástrofe. A lógica simples da mente humana não permite que ela capte toda a complexidade da realidade, em sua enorme velocidade de transformação. Com sua lógica divorciada da ética, o homem que constrói bombas não se recusará a utilizá-las contra inimigos nacionais.
A espécie humana parece fadada ao suicídio, se não biológico, ao menos civilizatório. A saída seria a pior das catástrofes: a parcela rica perceber que no mundo não cabem todos, e optar por uma ruptura no sentimento de semelhança entre seres humanos. E desenvolver a biotecnologia para induzir mudanças genéticas em benefício da parte rica da população, criando as bases éticas e filosóficas que justifiquem a exclusão e, a partir dela, a destruição da parte pobre da humanidade.
A catástrofe física e econômica seria evitada, mas ao custo da catástrofe ética: a catástrofe da saída.
("GAZETA DO POVO", de 21 / 09 / 2007) |